domingo, 15 de junho de 2014



(((publicado dia 30 de janeiro de 2013 no Facebook)))




SOBRE A ESCOLA DE ARISTÓTELES, MORADORES DE RUA, UMA DANÇARINA DE FREVO E ...   A DOENÇA DE CHAGAS, O WALMOR     :’((
 
Volume 50
 

  • - “A morte de cada homem me diminui, porque sou parte da humanidade. Portanto, nunca procuro saber por quem os sinos dobram : eles dobram por mim.” - escreveu (mais ou menos isso) John Donne, um poeta inglês. - P*rra, John Donne, você é f*da” - escreveu a Ro. ;))
  • E uma pessoa que se suicida me diminui profundamente. :’(( E me afeta, porque eu compreendo. Eu já senti um desespero profundo e senti com muita dor a dificuldade que é sobreviver a ele. Walmor era um homem lindo. Ele me lembrava meu tio Luiz, que também era um homem lindo. Quando a gente fazia concurso do tio mais bonito, entre as primas, ele sempre ganhava.   *\o/*
  • Um suicídio para preservar a dignidade humana, me afeta MUITO mais.   :’((   Porque eu compreendo MUITO mais. Eu disse aqui que já me senti abaixo da dignidade humana por não ter podido fazer meus tratamentos. Fui pra Curitiba pra fazer vários tratamentos, mas não pude fazer nenhum. Minha vida virou um ciclo vicioso: sem trabalhar, não posso me tratar. Sem me tratar, não consigo trabalhar.  =//
  • E nos dois anos que passei absolutamente só em Curitiba, quando eu estava triste porque vi que não poderia fazer os tratamentos, me caiu em mãos (a tal da ‘coincidência’) uma reportagem sobre moradores de rua. No que eles são diferentes de mim ?? Em nada. São seres humanos em sofrimento e em estado bruto. Um primo meu, Djalma, era filho adotivo. Mas ele não sabia que era adotivo e, quando descobriu, saiu de casa e virou mendigo. :’(( Sempre que eu ia pra Curitiba, eu ficava procurando por ele na Rodoferroviária. Ele vivia lá. Era um rapaz gentil, se vestia engraçado, com um terno de risca de giz, gel no cabelo, um bigodinho divertido... parecia um galã paraguaio. ;)) Eu adorava ele. Ele ia sempre na nossa casa e sempre levava pipoca pra mim. Fiquei chocada com essa reação dele... mas entendi : roubaram a história dele. Ele tinha o direito de saber. Infelizmente, a última imagem que tenho dele, é ele pequenininho, curvado, doente, cheio de cobertores velhos e sujos nos ombros, roupas sujas e rasgadas, cabelo desgrenhado, sem dentes... :’((
  • - "Nada do que é humano me é estranho", disse Terêncio. - “Puxa, eu queria TANTO conversar com o Terêncio”, disse a Ro.
  • Eu não sou uma pessoa ajudável. Não sou mãe solteira, não sou alcoólatra, não sou viciada, não sou ‘homerenga’, não sou uma baleia encalhadEPA !!!   >:((   Aí... há controvérsias (não tem graça, tá ??)    >:((    E eu sou feliz. Quem ajudaria uma pessoa feliz ?? Acreditem : ninguém. Pessoas felizes são muito mal vistas. ACREDITEM.  =//
  • E o que você faz quando descobre que além de ser um ser só, você não é uma pessoa ajudável, nem visitável ?? Você vira um ser peripatético, amigo leitor. - Que é isso, Ro ?? Já explico. Pra quem não sabe, ‘peripatético’ é a palavra grega para 'ambulante'. Peripatéticos eram discípulos de Aristóteles, que dava aulas passeando nos jardins. Como dizia Nietzsche, apenas os pensamentos caminhados têm valor.

          ...           
          (Olha... prestem atenção, isso é TÃO verdadeiro...)                                                                 :((           
          Então, eu saía caminhando por Curitiba, andava pelas praças, pelos calçadões, pra escolher um lugar pra morar, caso eu precisasse morar na rua. ‘Nada do que é humano me é estranho’, já disse. O que eu descobri ?? Que é preciso ter uma coragem sobrenatural pra morar na rua. Eu teria que virar alcoólatra. Ou teria que ser viciada. Só assim pra suportar a indignidade do que eu vi que é morar na rua. E precisava ter um cachorro. Todos eles têm. E eu tenho o Willy e a Preta que, além de tudo, tem know-how pra me ensinar a morar na rua. *\o/*

  • Claro que me senti abandonada. Mas não acho que alguém tivesse obrigação de me ajudar. Isso é uma opção de cada um. Vou contar uma coisa muito simbólica que me aconteceu. Uma vez, voltando de um desses passeios, em um final de tarde de muita chuva, eu caí na rua. Estava chovendo e ventando muito, eu passei sob uma árvore daquelas de florzinha amarela que tem nas ruas de lá e, com o vento, tinham várias flores caídas na calçada. Aí, a calçada ficou escorregadia, e eu... poft, caí de costas e segurando a sombrinha aberta. Parecia uma dançarina de frevo desastrada em uma vídeo-cassetada do Faustão. :’(( Final de tarde, horário de movimento intenso na Avenida Salgado Filho, mesmo com aquela chuva toda, mas as pessoas que vinham atrás de mim e as pessoas que vinham no sentido contrário, simplesmente passaram por mim. Invisibilidade pública ---------> eu fui. Vocês acham que alguém me estendeu a mão pra eu levantar ?? Não. As pessoas estão muito ocupadas...
  • Foi aí que eu percebi que existe um momento em que cada um de nós decide quem é : alguém que vira as costas para a dor do outro porque acredita que não tem nada a ver com isso ou alguém que assume seu lugar no mundo, a responsabilidade com quem tem menos e sofre mais. Viver é escolher. Eu JAMAIS deixaria uma pessoa caída no chão. Já vi pessoas caírem e já estendi a mão pra ajudar a se levantarem. Era o MÍNIMO que eu poderia fazer. E fiz.
  • Tenho competência pra ajudar. Isso me deixa feliz.
  • Não tenho competência pra pedir ajuda. Isso me deixa confusa.
  • Porque aí, acontece uma coisa na sua vida, uma daquelas coisas que você achava que só acontecia com os outros, e você não sabe como agir. E a solidão sempre nos traz algum entendimento. A maior parte da nossa vida é feita de acontecimentos sobre os quais não temos nenhum controle. Enquanto eu vi meu mundo desaparecendo sob meus pés, exatamente como no tombo que levei, eu entendi que a vida não é resultado das nossas ações. Nós é que somos o resultado da ação da vida.

          ...           
          Pensem nisso.

  • Adeus, Walmor  .

          Cai o pano.            
          :’((

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